Segunda-feira, Junho 13, 2005

Há que botá-los

Saiu da casa. A chuva caiu-lhe com força sobre os ombreiros, como tentando pedir algo. Caminhar resultava complicado, com chúvia até os geonlhos e vento saído directamente do ventre do universo. O sol tentava de forma fútil atravessar a capa de nuvens que envolvia o mundo, como a pretender umha missão condenada previamente ao fracasso. A terra tratava como de conservar a sua essência, sem câmbios.

Deu em caminhar pola única via. As augas iam contra ele, como as correntes do mundo que tiram por nós. Mais adiante havia um cruze de caminhos. As augas caiam do lado esquerdo. Seguindo recto as correntes acalmavam-se. A inclinação fazia que pola direita a auga caísse toda. A dificuldade para ir pola esquerda era manifesta, todo costa arriba e contracorrente. Se seguia recto, mais seguro. Pola direita, mais fácil: a riada levava-o quase sem querer.

Semelhava que tivesse chovido sempre. Sempre. Mas esta chuva tinha algo estranho, algo que não acavava de calhar. Sentia-se sujo e incómodo, como se alguém mejar por ele... Um homem estava a olhar o caminho, procurando que a gente fosse pola costa abaixo. "Parece que chove!". "Seica, seica".

Tomou a decisão final. Os caminhos podiam levar ao mesmo sítio, podiam conduzir a lugares e tempos distintos, mas estava claro que o caminho importava. Importava, porque era umha declaração de intenções, ideais, princípios... Ir costa arriba sem saber quando rematará de cair a chúvia. Continuar recto sem se preocupar polo caminho. Deixar-se levar polas correntes aparentemente mais fáceis...

Já sabia o que ia fazer. Para que a chuva deixasse de cair. Para que mais nunca dixessem que chove quando mejam por nós. Para que saísse o sol num ceu escuro e gris. Escolheu o seu caminho. Para acadar finalmente que esses montes de nuvens marchassem. Para botá-los. Há que botá-los.

Sexta-feira, Maio 06, 2005

Diário

Estou cabreada com meus pais. Não me entendem. Falam como se tiver um trastorno na cabeça, como se não reger... Eles não me compreendem. Não sabem o problema que tenho. Não querem que consiga o meu sonho. São uns egoístas. Não pensam no que quero eu.

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Ontem volvim fazê-lo. As minhas amigas dizem que é melhor para mim, ainda que no momento deu-me medo. Ou nojo. Não sei. De todas formas quero acadá-lo. Não podo desistir agora. Não agora que cheguei até aqui.

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Estou a consultar páginas web que me ajudem. Há muitos conselhos na rede, e podemos compartilhar experiências. Com isto descobrim que não somos as únicas. Sinto-me mais compreendida e aceitada.

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Não sei se me estarei a exceder. Hoje à manhã caim ao chão no liceu. Comecei a me sentir mal e perdim a consciência. Ainda assim penso ir à tarde ao ginásio. Tenho que seguir.

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Meu pai topou-me as pastilhas. Pujo-me uma cara mui preocupada. Não o entendo. Fago-o polo meu bem, para não estar gorda. Não como eles. As minhas amigas sim que estão preocupadas por mim. Sabem que estar contente com o meu corpo é mui importante.

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Vou marchar da casa. Já não aguanto mais. Meu pai quer que coma, mas não quero. Pensa que tenho anorexia, mas não sabe o que diz. Vou ir a um piso com mais moças que pensam igual do que eu. A ver se todo sai como quero.

Quinta-feira, Maio 05, 2005

Noite de festa

Saim à rua. Já ia fresco, ainda que estávamos na primavera. Sorte que levava roupa suficiente. Dei em caminhar devagar, sem muita gana. Ia ser uma noite de festa rachada, assim que não corria pressa.

Cheguei à casa de Chelo. Somos boas amigas, desde há alguns anos. Levo-me mui bem com ela. Baixou ao portal com Raquel, a sua vizinha. É-che-vos algo estranha, pero não é má pessoa.

Chegamos à casa de Inês. Já chegara Sabela, uma das nossas amigas. Algo louca ela. A festa era polo aniversário de Inês, assim que trouxera bebida a esgalha. Chelo e mais eu fôramos sem cear, mas tínhamos gana de beber algo. O mau veu quando os vizinhos de Inês se alporiçarom polo barulho e tivemos que marchar.

Estávamos de caminho, e Chelo tinha má cara.

- Chelo, o que foi?
- Ei, neninha, contesta.
- Quero ir prà casa a dormir...
- Tu não vas a ningures. Melhor vens connosco e falamos-che.

O que vem logo já sabedes o que é. Botou fora o que tinha, e o que não também. Comecei a preocupar-me.

- Inês, que Chelo não está bem - Inês não dava sinais de sentir-se aludida -. Inês!!
- Deixa-as, melhor imos ocupar-nos desta.

Para não deixarmos que dormisse no sítio, dimos em caminhar mui a modinho.

- Hei, mocinha.
- Deixa-a tranquila, que está má.
- Pois dai-lhe um trago que assim espabila.

O que havemos de ouvir às vezes. A palhasa que dixo isso tinha uma merda enriba descomunal. Que decadência. Nesse momento lembrei uma conversa que tivem com outra moça.

Fora outro fim-de-semana. Estávamos várias amigas. Uma moça do meu liceu deixara-nos pechadas nos serviços.

- Sabes que estamos forrados? Meu pai é traficante.

Eu aguantava o cabreio. A mui lareta tinha-nos presas e agora contava-nos a sua vida.

- Quando podo sair?
- Cala hóstias, que ainda nom rematei!!

O seu divagar foi relativo a com quem fodera essa noite, quantas raias metera no corpo e cousas similares. Logo cansou e marchamos.

Voltei ao mundo real. Tinha a Chelo meio comatosa, e Inês e companhia não davam sinais de decatar-se de nada. Já deviam de ter chegado. Soou o móvel. Sabela, por quarta vez.

- Pero onde me estais? Como é que ainda não chegastes? Há festa rachada!!
- Chelo está mui mal, parva! Estou a preocupar-me por ela! Deixa de tocar o caralho e fode com algum tio à minha saúde!

Desliguei. A conduta dessa rapaça amola-me muitíssimo. Dous séculos de luitas feministas e esta a fazer de objecto sexual com os moços do liceu. Tópico ambulante: bonitinha e parva. Não podes falar dez minutos seguidos com ela. Para rematarmos, logo de berrar-lhe, ainda não se decatara do de Chelo.

Quando chegamos, apareceu Sabela toda ofendida e perguntou por que berrara. O que me faltava agora, pôr-me a explicar agora nada. Lois, o moço de Chelo, acabou por topar-nos, logo de meia noite a chamar e perguntar por ela.

Eu não aguantava mais. O panorama lembrava-me às festas do Império Romano na época da decadência, justo antes de cair. Não temos ideais, sonhos, projectos... Não temos nada. Os nossos pais derom-no-lo todo, e não aspiramos a nada. Estamos condenados a ficar sempre assim, ou cair polo nosso próprio peso. Não sei quanto durará, mas acabará por ocorrer.

Marchei para a casa. Ainda não sei nada de Chelo. Ogalhá já melhorasse. Que dor de cabeça!

Campeador

- Como pudo passar isto? O que vai ser de nós? E agora que fazemos?
- Calma, todo tem solução...
- Que cona vai ter solução, Andrés!? Onde vês a solução a isto!?
- Tranquiliza-te, Moncho. Podemos sair desta - dixo Andrés - . Ainda há algo que podemos fazer.
- O que tens pensado? - dixo Moncho.
- Já verás.

Entrarom na habitação. Andrés, aparentemente tranqüilo, mas era perceptível a turbação à que estava a ser submetido. Porém, Moncho tranquilizava-o com espasmos nervosos. Todo pintava bem. A confiança que amossava Andrés começou a fazer efeito no outro. "Igual saímos desta". Observarom o corpo, imóvel.

- Põe-lhe o traxe - dixo Andrés.
- Por que eu?
- Alguém tem que fazê-lo.
- Esta guardo-cha.
- Crê-me se che digo que isto não se vai volver repetir.

"Ogalhá", pensou Moncho. O certo é que ainda estava nervoso de mais.

Pugerom a gravata ao corpo inanimado. Este, embora estivera afeito noutrora a protestar, não o fizo.

- Levamo-lo já?
- Moncho, acouga, vale? Ainda é mui cedo. Já o levaremos quando dem os resultados.
- Ganharemos?
- Sem dúvida. Ainda que não deixa de ter o seu aquele.
- Por que?
- Por um livro. Cantar de Mio Cid.

- Estám já os resultados? - dixo Moncho.
- Sim, volvemos ganhar.
- E agora que fazemos?
- Não sei, já pensaremos nalgo. Lembra que el Cid ganhou batalhas morto. E este já estava morto em vida. Não há muita diferença.

Terça-feira, Maio 03, 2005

História duma moça

Pechou a porta e marchou, levando consigo a sua fúria assassina. Ela ficou no chão, em mortal silêncio. Um silêncio que intimidava, anormal... Ainda estava consciente, embora ter recebido uma forte malheira, pero a intensa dor em todo o seu corpo impedia-lhe mover-se.

A mulher lembrou como fora a sua vida antes de conhecê-lo. Sentira-se baleira, sempre a notar em falta alguém especial. Sentira-se sozinha no mundo.

Um dia, um moço mui atractivo convidara-a a sair. Aceitara, como fizera tantas vezes por passar o tempo. Chegara um momento no que já não sabia com quem estava. Pero este foi distinto...

Este sabia como fazer que ela amossasse um sorriso. Mostrava-se mui seguro canda ela, pero ao mesmo tempo mui amável, atento... Ficou namorada deseguida. Iam juntos a todas partes. Apenas levavam um ano a sair e já forom viver juntos. Os pais dela negarom-se, pero ela fugiu da casa, seguindo os seus sentimentos.

A sua vida não podia ser melhor. Vivia com o homem que queria, com independência... Podia ver o seu rosto as vinte e quatro horas do dia se o desejava, e quando o fazia o seu coração ficava cheio de ledícia. Tão feliz era ela, e tanto queria que durasse por sempre que, sendo das que não iam cassar nunca, declarou-se uma noite que passeavam à beira dum rio. O homem aceitou, e aos dous meses já viviam legalmente em parelha.

Um dia, polo serão, que ele estava a ver a televisão, ela lembrou que faltava algo por comprar para fazer a ceia. Dixo-lhe que baixava um intre, mas ele, estranhamente, alporiçou-se e respostou que ela não ia a ningures a essa hora. Ela, como não aguardava resposta tal, ficou calada. “Deve de ter um mal dia”, pensou.”Já passará”.

Rematou o dia e ela foi dormir. Ao dia seguinte já nem se lembrava do que passara. Para esse dia quedara com umas amigas de toda a vida num café. Dixo-lho, que se ergueu num chimpo do sofá onde se topava. Reprochou-lhe que cada vez estava menos tempo com ele.

Passou o tempo e tiverom um meninho. Motivo suficiente para novas discussões, já que ele volveu reprochar-lhe que passava muito tempo com o meninho.

Um dia, farta de tanta vexação, ela pujo-se face a face perante o seu homem, e dixo que as cousas não podiam seguir por aí. A mulher, agora que tinha um filho de seu, queria criá-lo num ambiente de paz, não de violência. Ele estoupou numa fúria assassina. Berrou “Quem és tu para me falar assim?”, e por momentos notou-se-lhe nos olhos uma raiva contida que um dia estouparia.

Ela segue tirada no chão. Não se move. No quarto não se ouve som nenhum. De súpeto, algo começa a mover-se baixo uma mesa. O meninho, já de cinco ou seis anos, assoma a cabeça. Achega-se a sua mãe.

- Não te preocupes, filhinho. Já passou todo.

Contos arredor do lume

Contos como os que contávamos nas tardes de inverno, como os que léramos mas já não lembramos. Histórias que podem ter passado, que podem ser produto da imaginação. Aguardo que quem ler isto passe um anaco tam agradável como os que passo eu a escrevê-lo. Além.