quinta-feira, maio 05, 2005

Noite de festa

Saim à rua. Já ia fresco, ainda que estávamos na primavera. Sorte que levava roupa suficiente. Dei em caminhar devagar, sem muita gana. Ia ser uma noite de festa rachada, assim que não corria pressa.

Cheguei à casa de Chelo. Somos boas amigas, desde há alguns anos. Levo-me mui bem com ela. Baixou ao portal com Raquel, a sua vizinha. É-che-vos algo estranha, pero não é má pessoa.

Chegamos à casa de Inês. Já chegara Sabela, uma das nossas amigas. Algo louca ela. A festa era polo aniversário de Inês, assim que trouxera bebida a esgalha. Chelo e mais eu fôramos sem cear, mas tínhamos gana de beber algo. O mau veu quando os vizinhos de Inês se alporiçarom polo barulho e tivemos que marchar.

Estávamos de caminho, e Chelo tinha má cara.

- Chelo, o que foi?
- Ei, neninha, contesta.
- Quero ir prà casa a dormir...
- Tu não vas a ningures. Melhor vens connosco e falamos-che.

O que vem logo já sabedes o que é. Botou fora o que tinha, e o que não também. Comecei a preocupar-me.

- Inês, que Chelo não está bem - Inês não dava sinais de sentir-se aludida -. Inês!!
- Deixa-as, melhor imos ocupar-nos desta.

Para não deixarmos que dormisse no sítio, dimos em caminhar mui a modinho.

- Hei, mocinha.
- Deixa-a tranquila, que está má.
- Pois dai-lhe um trago que assim espabila.

O que havemos de ouvir às vezes. A palhasa que dixo isso tinha uma merda enriba descomunal. Que decadência. Nesse momento lembrei uma conversa que tivem com outra moça.

Fora outro fim-de-semana. Estávamos várias amigas. Uma moça do meu liceu deixara-nos pechadas nos serviços.

- Sabes que estamos forrados? Meu pai é traficante.

Eu aguantava o cabreio. A mui lareta tinha-nos presas e agora contava-nos a sua vida.

- Quando podo sair?
- Cala hóstias, que ainda nom rematei!!

O seu divagar foi relativo a com quem fodera essa noite, quantas raias metera no corpo e cousas similares. Logo cansou e marchamos.

Voltei ao mundo real. Tinha a Chelo meio comatosa, e Inês e companhia não davam sinais de decatar-se de nada. Já deviam de ter chegado. Soou o móvel. Sabela, por quarta vez.

- Pero onde me estais? Como é que ainda não chegastes? Há festa rachada!!
- Chelo está mui mal, parva! Estou a preocupar-me por ela! Deixa de tocar o caralho e fode com algum tio à minha saúde!

Desliguei. A conduta dessa rapaça amola-me muitíssimo. Dous séculos de luitas feministas e esta a fazer de objecto sexual com os moços do liceu. Tópico ambulante: bonitinha e parva. Não podes falar dez minutos seguidos com ela. Para rematarmos, logo de berrar-lhe, ainda não se decatara do de Chelo.

Quando chegamos, apareceu Sabela toda ofendida e perguntou por que berrara. O que me faltava agora, pôr-me a explicar agora nada. Lois, o moço de Chelo, acabou por topar-nos, logo de meia noite a chamar e perguntar por ela.

Eu não aguantava mais. O panorama lembrava-me às festas do Império Romano na época da decadência, justo antes de cair. Não temos ideais, sonhos, projectos... Não temos nada. Os nossos pais derom-no-lo todo, e não aspiramos a nada. Estamos condenados a ficar sempre assim, ou cair polo nosso próprio peso. Não sei quanto durará, mas acabará por ocorrer.

Marchei para a casa. Ainda não sei nada de Chelo. Ogalhá já melhorasse. Que dor de cabeça!